segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Este menino não tem jeito, não

Hoje uma pequena megera insultou meu trabalho. Como era mulher, ouvi e não respondi. Não queria que me tomasse por um machista retrógrado e a mandasse ser bem fodida. É que todos os que me conhecem sabem que não há nenhuma linha estanque que separe o meu "eu" daquilo que faço, e que, aliás, não tem interesse nenhum para a felicidade da humanidade. Logo, ela estava me insultando a mim. Lembrei do episódio da vagina dentata, do Ruben, e me imaginei enfiando um grande osso buco na boceta da megera. Ela era bem capaz de desfazer um osso em pó apenas com o sexo. Senti repulsa dos meus pensamentos e uma vontade de abandonar a cadeira e ir ver o mar, fazer festas a um cão sarnento e vagabundo, sorrir a uma criança ou amparar um velho. Essas coisas que há cada vez menos pessoas fazendo, porque a humanidade se tornou mesmo inútil, e eu fico assim, sem resposta, quando um ser com uma boceta me humilha. Dá vontade mesmo de pegar em toda a raiva e transformar todo o sentimento em amor bobo: abrir a janela que dá para a favela como se saísse de dias de escuridão, ou ter até o privilégio de baixar à rua para ver se tem carta. Mas ninguém me escreve. Nem contas para pagar às quais pudesse responder e ensaiar uma prosa. Puta que pariu. Eu que só quis coisas boas para minha vida, um bom emprego, uma mulher para gastar cafunés, um par de filhos rodando bola, rodando à minha volta, me chamando papai. E hoje aqui estou: sozinho, fumando beatas para pegar no sono, olhando a lua e fazendo planos.
A mina quase ia estragando o meu dia até que o sono baixou e eu sonhei que estava deitado num vasto campo verde e macio, embalado pela brisa, ouvindo as histórias divertidas que a vovó contava sobre as doenças que se apanhavam nas roças. Eu rindo, vovó rindo de mim, moleque, dizendo 'este menino não tem jeito, não'. E não é que ela estava certa? Saudades de você, vovó, e do seu cheiro a panela, dos seus carinhos, do seu aconchego. Saudades de um tempo que teimo não sejam apenas memórias. Amanhã mesmo mando a mina tomar no cu. Quero ser eu mesmo, procurar um rumo, uma vida comum, meio igual ao do sujeito que toma café no boteco da praça. Um inútil feliz. Mas tremendamente feliz.

sábado, 20 de agosto de 2016

As expectativas

Lá ao fundo, cantas os "homens Temporariamente Sós", dos GNR. Antes, em confidências ébrias me dizias que ninguém como eu escrevia em Portugal. Agradeço-te o carinho, o amor. Queria muito estar à altura da tua convicção, emocionar-te como sei não ser possível, ao menos captar-te a benevolência para tal conquista. Sei que estamos longe, entre o que um pensa e o outro sente, mas sabendo-te por aí, toda eu regozijo em verborreia. Meu amor.

sábado, 7 de maio de 2016

Alice

Todas as semanas, o mesmo ritual. Alice saía de casa ao sábado, pontualmente às 13h36, alheia à meteorologia, aliás, como a todas as coisas que a ciência explica. O casaco dava para tudo: se fizesse frio, aconchegava, se o calor se tornasse insuportável podia guardá-lo na cadeira do lado. Não costumava haver ninguém nas cadeiras das piscinas municipais depois das treze. Chegava ao complexo desportivo e sentava-se, à espera da próxima aula, num nervoso miudinho como se fosse sempre a primeira vez. Não sabia o que era um hábito ou uma rotina, sabia apenas que era tudo igual; que no fim não saberia mais, nem menos, mas durante esses 45 minutos semanais podia efabular sobre o seu objecto de desejo, ali vulnerável, de calção de licra, na cabeça a touca e óculos por colocar. Mal a porta dos balneários abria, Alice contorcia-se para conseguir ver através da janela embaciada se o perfil aparecia. Já era a décima sexta semana, e nunca tinha deixado de aparecer. Nesse momento, esquecia-se de tudo, de quem era, de onde morava, do que tinha de ir comprar a seguir ao Lidl. Durante o tempo da aula de natação, ali sentada na cadeira onde os pais se riem com as gracinhas dos filhos que aprendem a dar os primeiros mergulhos, Alice tinha um tempo e um modo só seu. Seu e dele. Todos os sábados, às 14 horas em ponto, ele, passos de soldado, ao entrar na piscina, levantava a cabeça e siderava os olhos nela. E ela não podia fazer, nem queria, o estômago apertava-se em espasmos, mas as duas órbitas estacavam na mesma direcção, indiferentes a olhares alheios que, todavia, nunca existiam.
E lá ficava ela a vê-lo na piscina, a obedecer a todas as instruções do professor como se fossem ordens para um soldado, executando cada movimento com uma precisão e contenção maníacas, sem necessidade aparente de descansar para recuperar o fôlego.
Alice via-lhe as formas. Por trás, umas costas em V, um rabo duro e grande, musculado. Pela frente, abdominais definidos e uns pêlos aqui e ali. Estaria no fim da adolescência. Teria a idade do filho que nunca teve. Aliás, quando o médico lhe perguntou que interesse lhe despertara o rapaz, Alice não soube responder. Não era nada de mal, respondia, era uma coisa que não conseguia explicar, uma espécie de coisa que a puxava para ele, como se fosse íman, percebe doutor? Como se fôssemos parte de um só, só que eu não sei nadar e ele sabe. Tão bem, doutor, precisava vê-lo, todo direitinho, parece aqueles nadadores profissionais que aparecem na televisão como cometas. Está a ver?
Alice permanecia sentada na cadeira com as pernas muito juntas e as costas debruçadas sobre as pernas para conseguir ver os quatro cantos da piscina infantil. Não era difícil vê-lo no meio das crianças que pulavam e gritavam e se divertiam indiferentes às ordens do professor que ele cumpria com eficácia. Hoje, pela primeira vez, reparara na barriga incipiente de uma menina, daquelas barrigas que vão ficando nas crianças. Esta é das gordinhas, pensou.
Dá-me licença?
Quase salta da cadeira como se as janelas se tivessem aberto e iluminado o quarto onde dormia na completa escuridão.
Claro.
Tira o casaco da cadeira para dar lugar a um casal que se senta animadamente. Frases soltas. Vê-se que são pais de uma daquelas crianças. Gabam, orgulhosos, as tentativas de braçadas.
E aquele ali? Achas que é o professor?
Não. O professor é aquele. Está lá fora... Mas sim, o que é que aquele está ali a fazer?
Alice desconcentra-se. Tem vontade de pegar no casaco e no saco de plástico e sair dali. Já não está sozinha. Não consegue pensar. Mas e ele? O quão triste e desiludido vai ficar quando a aula terminar, olhar para cima e não a vir?
Alice repara que a mulher também não tira os olhos dele. Começa a ficar irritada com aquele ataque à privacidade dos dois. Isto sou eu a dizer. Alice não sabe dar nome ao que sente. Só sabe que é mau.
Muito estranho. Já viste como ele faz os movimentos? Está no tanque de aprendizagem! Achas que aquele marmanjo não sabe nadar? Tem um corpo tão estranho! Junto às crianças... Temos de ver isto na secretaria. Não é normal.
Espero que um dia quando for aprender a nadar não me ponham na piscina das crianças, olha a vergonha...
(...)
Ele não está a aprender a nadar; ele é atrasado mental.
Ah, pois é. Fala baixo. Pode ter aqui os pais a ouvir.
Alice levanta-se, maquinalmente, abre a pesada porta de vidro. Veste o casaco apesar de sentir fogo por dentro. Fogo que nenhuma água vai apagar, porque há anos que não consegue chorar.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Dar à luz

Estou com um nervoso miudinho. Amanhã vou ser mãe pela primeira vez. Costumo ser mãe duas vezes por ano, por volta das férias grandes e nas férias de Natal. E custa-me sempre como se fosse a vez inicial: os nervos, os medos e receios de um ser estranho, a vontade de fechar a vida e o mundo naqueles infindáveis abraços e beijos e cheiros de cabeças. Amanhã recebo um filho durante três semanas e, nestes poucos dias, tento fazer com que durem anos: ele chega bebé, aninha-se, pede e deseja como uma criança, depois cresce e farta-se, afasta-se, vai à vida dele. E nesse momento de despedida passaram 19 anos, três semanas, e eu sinto sempre: deixa-o ir à vida dele, recusa-te prostrar-te que não foi à guerra e daqui por seis meses ele renasce e volta ao teu colo.
O medo? E se ele não gostar de mim? Como aterra um ser que já desconheço no meio da vida que sempre correu sem ele - como pode correr? Posso pará-la? Como prolongar o tempo? São três semanas que medeiam o nascimento e a vida adulta. E vai haver choro e cólicas, e gargalhadas e acusações, escárnios adolescentes e discussões de política, e vai haver o final "o que me importa, filho, é que sejas feliz". Como aguentar esta bipolaridade temporal? Como parar o tempo e não pensar que o dia em que o abraço dita o dia em que me despeço?
Amanhã vou dar à luz pela segunda vez no ano e tenho o ninho preparado: a cama mais quente, as comidas preferidas, o mimo irracional, o foco das minhas atenções. Pelo menos, durante as próximas três semanas, vou amá-lo como quem vê uma semente que cresce, um broto que se distingue para um dos lados, um fruto que amadurece e é levado por um pássaro. Meu filho, sê bem-vindo a este mundo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Os picos da serra

Enquanto é possível ver o pico da serra, sento-me ali no banquinho de pedra a ver se chegas. Dali consigo avistar uma parte do caminho da entrada até à garagem. Ouvem-se duas gralhas e uma gaivota que deve estar perdida e os olhos também se confundem com a ambiguidade da pouca luz desta tarde. Parece que oiço o motor do teu carro enferrujado pela estrada de terra batida, mas não és tu quem chega. Quantos carros desses haverá por aqui?
A árvore maior que se destaca como aquelas rapariguinhas altas e desengonçadas que havia na escola, mochilinha às costas, soquete até ao joelho. O que diz ela que me confunde?
Deixo de ver o pico novamente e o vento volta a soprar com mais força. Vem aí chuva. Quem me dera fosse diluviosa que limpasse tudo, mas só depois de chegares, amor. Que a água limpe tudo e nós possamos, depois de abraçados um ao outro, acordar outra vez para um dia novo, com luz que fere os olhos, mãos rodopiando entre as cinturas, uma outra estrada para percorrer.
Vem depressa. Está a chover e estou farta de estar sozinha.

domingo, 27 de setembro de 2015

Ela disse: "vou ali comprar tabaco, aproveito e deixo o lixo no caixote, apanho um bocado de ar fresco e isto passa". Mas estava a relativizar apenas para não dar importância àquilo que, de facto, nenhuma importância tem, e são chamados "os estados de alma".
Abandonou o jardim e fechou o portão. Olhou para trás. Havia uma casa com uma chaminé quase fumegante e a luz, lusco-fusco, dava para perceber que nas paredes havia estantes com livros e um vulto passava entre as divisões.
Encaminhou-se para a serra. A estrada batida apenas se sentia nos sapatos desadequados. Andou com os ouvidos despertos, a lua, gigante, a acompanhá-la. Uma brisa que já enregelava a cara e a ponta do nariz. Ouvia-se a coruja, lá longe, e muitas vezes se voltou para perceber se os sons que vinham das silvas a mover-se seriam algum animal perdido, como ela. Procurava uma clareira onde, finalmente, pudesse sentar-se, pinheiros em volta e a luz da lua e o seu silêncio complacente.
Ali, sentada num troco, havia de fechar os olhos. Quase se ouvia respirar. As noites continuam a ser longas e as clareiras inabitadas são precariamente seguras. O precário na noite é tudo o que temos.
Há anos que tinha este hábito de fugir de casa à noite, quando tudo é respiração, e lá longe se ouve um cão a uivar ou uma escaramuça de gatos. As casas habitadas estão cheias de demónios que impedem o sono de se aquietar.
Levava a almofada para a praia, para o campo da bola, para qualquer local amplo e sem vestígios da presença humana. Aí, embalada pela lua e pelos sons da noite, deixava que a natureza fizesse aquilo que lhe fazia tão bem, embalá-la, acalmá-la, abraçá-la num sono leve, mas que, ao contrário de tudo o resto, tinha existência de facto.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A tua vida é uma bela merda? Tens de conhecer a Cici

Lá está ela, ali, num canto, olhar justiceiro, como aquelas amigas que gostam de ti, mas reprovam a maioria das coisas que fazes. Tenho a certeza que podia mudar a minha vida. Deixaria de fumar e beber, passaria a ter uma alimentação saudável, a levar mais vezes a cadela à rua, a correr que nem uma louca com um colete reflector por essa serra fora. Mas estarei eu preparada para a mudança que ali, naquele canto, existe em potência?
Estou há uma semana sem saber o que fazer. Se começar a relacionar-me com ela, talvez nada volte a ser como dantes, e é disso que tenho medo. Oiço as promessas que cumpriu: mudou a vida de tanta gente, de umas é braço direito e esquerdo, de outras é uma companhia, de outras ainda é tudo, a dona de casa que eu gostaria de ser. Gostaria?
Só a minha mãe para infiltrar na minha própria casa esta agente do KGB. Esta coisa que me deixa insegura e envergonhada de cada vez que abro uma lata de sardinhas ou atum ao almoço. Porque lá está, inerte, sem palavras, com o seu olhar reprovador. Agora, aos 38 anos, é que me tinha de acontecer isto... Não sei como reagir. Não sei como é que ela vai lidar com a minha inexperiência, a minha falta de paciência, os meus palavrões. E se vem da minha mãe, todos os cuidados são poucos, pelo que, a primeira medida que tomei foi ler tudo sobre o assunto. Há gajos especialistas na teoria de Heisenberg, eu sei tudo sobre a Cici. Assim mesmo, com "c". Eu tenho uma Cici, sei tudo sobre ela, mas não consigo, não sei se quero iniciar um relacionamento nesta fase da minha vida. Pior do que tê-la ali, vegetativa, é usá-la só às vezes, como um amante que se veste a seguir e dá dinheiro para o táxi.
Sabiam que há tratados sobre a Cici? E que a Cici não é pior do que a Bimby ou a Yammy? A Cici não é pior, nem é melhor. A Cici é diferente, começando pelo nome. A Cici tem várias lâminas, e até tem uma que corta e outra que tritura, e eu não percebo qual a diferença entre as duas, mas teno a sensação que deve ser bom ter duas lâminas diferentes para triturar e picar. A Cici é muito melhor do que eu, porque ela sabe a diferença entre os dois processos, e, pelo que li na net, é uma diferença muito importante.
A minha mãe ligou hoje. "Já estreaste a Cici?" "O Vítor gosta da Cici'?". Eu começo a ter medo da Cici, essa agente infiltrada e perfeita que jaz, vegetal, na bancada da cozinha.
Eu sei que a Cici é gaja para mudar a minha vida, mas, bolas, com esta idade? Acho que vou deixá-la ali e contra ela arquitectar um plano para quando o meu marido por ela se apaixonar. "Ai, a Cici... olha, podes ir para a cama com a Cici, mas tens de mudar a lâmina primeiro, não te vá capar as miudezas. E aproveita e pede à Cici para ir pôr o lixo na rua e levar a cadela a passear. Tenho a certeza de ela é capaz".
Hoje percebo aquela discussão pífia sobre se os robôs nos vão roubar os empregos. É que esta não fala, mas é como se falasse. E o olhar? Fulmina-me.