terça-feira, 1 de novembro de 2016

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Era uma casa

Durante muito tempo mantive a convicção de que não conseguiria escrever sobre aquela casa.
Foi assim que a reencontrei: abandonada, sem palavras, sem seiva, seca, destruída, amarfanhada como uma coisa que se enfia no bolso para esconder e que se esquece e lá permanece a ganhar mofo. Carcomida por ervas daninhas e pela vida inacabada de alguém.
Na bancada, ovos de variados tamanhos, um saco com os últimos figos da estação e uma galinha arranjada e pronta a cozinhar ofertas dos vizinhos que me enxugam as lágrimas e me incentivam a fazer tudo de novo.
Agora, que já senti a terra entre os dedos, que acordo com vontade de ouvir aquilo que só aqui se ouve àquela hora, sei que aqui é o meu lugar, e que aqui farei crescer novas raízes que me vão dar sombra, quando o sol é demasiadamente quente para suportar, ou abrigo, quando for preciso resguardar-me da chuva.
Que comecem os trabalhos e os dias na (tão) nossa casa.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Este menino não tem jeito, não

Hoje uma pequena megera insultou meu trabalho. Como era mulher, ouvi e não respondi. Não queria que me tomasse por um machista retrógrado e a mandasse ser bem fodida. É que todos os que me conhecem sabem que não há nenhuma linha estanque que separe o meu "eu" daquilo que faço, e que, aliás, não tem interesse nenhum para a felicidade da humanidade. Logo, ela estava me insultando a mim. Lembrei do episódio da vagina dentata, do Ruben, e me imaginei enfiando um grande osso buco na boceta da megera. Ela era bem capaz de desfazer um osso em pó apenas com o sexo. Senti repulsa dos meus pensamentos e uma vontade de abandonar a cadeira e ir ver o mar, fazer festas a um cão sarnento e vagabundo, sorrir a uma criança ou amparar um velho. Essas coisas que há cada vez menos pessoas fazendo, porque a humanidade se tornou mesmo inútil, e eu fico assim, sem resposta, quando um ser com uma boceta me humilha. Dá vontade mesmo de pegar em toda a raiva e transformar todo o sentimento em amor bobo: abrir a janela que dá para a favela como se saísse de dias de escuridão, ou ter até o privilégio de baixar à rua para ver se tem carta. Mas ninguém me escreve. Nem contas para pagar às quais pudesse responder e ensaiar uma prosa. Puta que pariu. Eu que só quis coisas boas para minha vida, um bom emprego, uma mulher para gastar cafunés, um par de filhos rodando bola, rodando à minha volta, me chamando papai. E hoje aqui estou: sozinho, fumando beatas para pegar no sono, olhando a lua e fazendo planos.
A mina quase ia estragando o meu dia até que o sono baixou e eu sonhei que estava deitado num vasto campo verde e macio, embalado pela brisa, ouvindo as histórias divertidas que a vovó contava sobre as doenças que se apanhavam nas roças. Eu rindo, vovó rindo de mim, moleque, dizendo 'este menino não tem jeito, não'. E não é que ela estava certa? Saudades de você, vovó, e do seu cheiro a panela, dos seus carinhos, do seu aconchego. Saudades de um tempo que teimo não sejam apenas memórias. Amanhã mesmo mando a mina tomar no cu. Quero ser eu mesmo, procurar um rumo, uma vida comum, meio igual ao do sujeito que toma café no boteco da praça. Um inútil feliz. Mas tremendamente feliz.

sábado, 20 de agosto de 2016

As expectativas

Lá ao fundo, cantas os "homens Temporariamente Sós", dos GNR. Antes, em confidências ébrias me dizias que ninguém como eu escrevia em Portugal. Agradeço-te o carinho, o amor. Queria muito estar à altura da tua convicção, emocionar-te como sei não ser possível, ao menos captar-te a benevolência para tal conquista. Sei que estamos longe, entre o que um pensa e o outro sente, mas sabendo-te por aí, toda eu regozijo em verborreia. Meu amor.

sábado, 7 de maio de 2016

Alice

Todas as semanas, o mesmo ritual. Alice saía de casa ao sábado, pontualmente às 13h36, alheia à meteorologia, aliás, como a todas as coisas que a ciência explica. O casaco dava para tudo: se fizesse frio, aconchegava, se o calor se tornasse insuportável podia guardá-lo na cadeira do lado. Não costumava haver ninguém nas cadeiras das piscinas municipais depois das treze. Chegava ao complexo desportivo e sentava-se, à espera da próxima aula, num nervoso miudinho como se fosse sempre a primeira vez. Não sabia o que era um hábito ou uma rotina, sabia apenas que era tudo igual; que no fim não saberia mais, nem menos, mas durante esses 45 minutos semanais podia efabular sobre o seu objecto de desejo, ali vulnerável, de calção de licra, na cabeça a touca e óculos por colocar. Mal a porta dos balneários abria, Alice contorcia-se para conseguir ver através da janela embaciada se o perfil aparecia. Já era a décima sexta semana, e nunca tinha deixado de aparecer. Nesse momento, esquecia-se de tudo, de quem era, de onde morava, do que tinha de ir comprar a seguir ao Lidl. Durante o tempo da aula de natação, ali sentada na cadeira onde os pais se riem com as gracinhas dos filhos que aprendem a dar os primeiros mergulhos, Alice tinha um tempo e um modo só seu. Seu e dele. Todos os sábados, às 14 horas em ponto, ele, passos de soldado, ao entrar na piscina, levantava a cabeça e siderava os olhos nela. E ela não podia fazer, nem queria, o estômago apertava-se em espasmos, mas as duas órbitas estacavam na mesma direcção, indiferentes a olhares alheios que, todavia, nunca existiam.
E lá ficava ela a vê-lo na piscina, a obedecer a todas as instruções do professor como se fossem ordens para um soldado, executando cada movimento com uma precisão e contenção maníacas, sem necessidade aparente de descansar para recuperar o fôlego.
Alice via-lhe as formas. Por trás, umas costas em V, um rabo duro e grande, musculado. Pela frente, abdominais definidos e uns pêlos aqui e ali. Estaria no fim da adolescência. Teria a idade do filho que nunca teve. Aliás, quando o médico lhe perguntou que interesse lhe despertara o rapaz, Alice não soube responder. Não era nada de mal, respondia, era uma coisa que não conseguia explicar, uma espécie de coisa que a puxava para ele, como se fosse íman, percebe doutor? Como se fôssemos parte de um só, só que eu não sei nadar e ele sabe. Tão bem, doutor, precisava vê-lo, todo direitinho, parece aqueles nadadores profissionais que aparecem na televisão como cometas. Está a ver?
Alice permanecia sentada na cadeira com as pernas muito juntas e as costas debruçadas sobre as pernas para conseguir ver os quatro cantos da piscina infantil. Não era difícil vê-lo no meio das crianças que pulavam e gritavam e se divertiam indiferentes às ordens do professor que ele cumpria com eficácia. Hoje, pela primeira vez, reparara na barriga incipiente de uma menina, daquelas barrigas que vão ficando nas crianças. Esta é das gordinhas, pensou.
Dá-me licença?
Quase salta da cadeira como se as janelas se tivessem aberto e iluminado o quarto onde dormia na completa escuridão.
Claro.
Tira o casaco da cadeira para dar lugar a um casal que se senta animadamente. Frases soltas. Vê-se que são pais de uma daquelas crianças. Gabam, orgulhosos, as tentativas de braçadas.
E aquele ali? Achas que é o professor?
Não. O professor é aquele. Está lá fora... Mas sim, o que é que aquele está ali a fazer?
Alice desconcentra-se. Tem vontade de pegar no casaco e no saco de plástico e sair dali. Já não está sozinha. Não consegue pensar. Mas e ele? O quão triste e desiludido vai ficar quando a aula terminar, olhar para cima e não a vir?
Alice repara que a mulher também não tira os olhos dele. Começa a ficar irritada com aquele ataque à privacidade dos dois. Isto sou eu a dizer. Alice não sabe dar nome ao que sente. Só sabe que é mau.
Muito estranho. Já viste como ele faz os movimentos? Está no tanque de aprendizagem! Achas que aquele marmanjo não sabe nadar? Tem um corpo tão estranho! Junto às crianças... Temos de ver isto na secretaria. Não é normal.
Espero que um dia quando for aprender a nadar não me ponham na piscina das crianças, olha a vergonha...
(...)
Ele não está a aprender a nadar; ele é atrasado mental.
Ah, pois é. Fala baixo. Pode ter aqui os pais a ouvir.
Alice levanta-se, maquinalmente, abre a pesada porta de vidro. Veste o casaco apesar de sentir fogo por dentro. Fogo que nenhuma água vai apagar, porque há anos que não consegue chorar.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Dar à luz

Estou com um nervoso miudinho. Amanhã vou ser mãe pela primeira vez. Costumo ser mãe duas vezes por ano, por volta das férias grandes e nas férias de Natal. E custa-me sempre como se fosse a vez inicial: os nervos, os medos e receios de um ser estranho, a vontade de fechar a vida e o mundo naqueles infindáveis abraços e beijos e cheiros de cabeças. Amanhã recebo um filho durante três semanas e, nestes poucos dias, tento fazer com que durem anos: ele chega bebé, aninha-se, pede e deseja como uma criança, depois cresce e farta-se, afasta-se, vai à vida dele. E nesse momento de despedida passaram 19 anos, três semanas, e eu sinto sempre: deixa-o ir à vida dele, recusa-te prostrar-te que não foi à guerra e daqui por seis meses ele renasce e volta ao teu colo.
O medo? E se ele não gostar de mim? Como aterra um ser que já desconheço no meio da vida que sempre correu sem ele - como pode correr? Posso pará-la? Como prolongar o tempo? São três semanas que medeiam o nascimento e a vida adulta. E vai haver choro e cólicas, e gargalhadas e acusações, escárnios adolescentes e discussões de política, e vai haver o final "o que me importa, filho, é que sejas feliz". Como aguentar esta bipolaridade temporal? Como parar o tempo e não pensar que o dia em que o abraço dita o dia em que me despeço?
Amanhã vou dar à luz pela segunda vez no ano e tenho o ninho preparado: a cama mais quente, as comidas preferidas, o mimo irracional, o foco das minhas atenções. Pelo menos, durante as próximas três semanas, vou amá-lo como quem vê uma semente que cresce, um broto que se distingue para um dos lados, um fruto que amadurece e é levado por um pássaro. Meu filho, sê bem-vindo a este mundo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Os picos da serra

Enquanto é possível ver o pico da serra, sento-me ali no banquinho de pedra a ver se chegas. Dali consigo avistar uma parte do caminho da entrada até à garagem. Ouvem-se duas gralhas e uma gaivota que deve estar perdida e os olhos também se confundem com a ambiguidade da pouca luz desta tarde. Parece que oiço o motor do teu carro enferrujado pela estrada de terra batida, mas não és tu quem chega. Quantos carros desses haverá por aqui?
A árvore maior que se destaca como aquelas rapariguinhas altas e desengonçadas que havia na escola, mochilinha às costas, soquete até ao joelho. O que diz ela que me confunde?
Deixo de ver o pico novamente e o vento volta a soprar com mais força. Vem aí chuva. Quem me dera fosse diluviosa que limpasse tudo, mas só depois de chegares, amor. Que a água limpe tudo e nós possamos, depois de abraçados um ao outro, acordar outra vez para um dia novo, com luz que fere os olhos, mãos rodopiando entre as cinturas, uma outra estrada para percorrer.
Vem depressa. Está a chover e estou farta de estar sozinha.

domingo, 27 de setembro de 2015

Ela disse: "vou ali comprar tabaco, aproveito e deixo o lixo no caixote, apanho um bocado de ar fresco e isto passa". Mas estava a relativizar apenas para não dar importância àquilo que, de facto, nenhuma importância tem, e são chamados "os estados de alma".
Abandonou o jardim e fechou o portão. Olhou para trás. Havia uma casa com uma chaminé quase fumegante e a luz, lusco-fusco, dava para perceber que nas paredes havia estantes com livros e um vulto passava entre as divisões.
Encaminhou-se para a serra. A estrada batida apenas se sentia nos sapatos desadequados. Andou com os ouvidos despertos, a lua, gigante, a acompanhá-la. Uma brisa que já enregelava a cara e a ponta do nariz. Ouvia-se a coruja, lá longe, e muitas vezes se voltou para perceber se os sons que vinham das silvas a mover-se seriam algum animal perdido, como ela. Procurava uma clareira onde, finalmente, pudesse sentar-se, pinheiros em volta e a luz da lua e o seu silêncio complacente.
Ali, sentada num troco, havia de fechar os olhos. Quase se ouvia respirar. As noites continuam a ser longas e as clareiras inabitadas são precariamente seguras. O precário na noite é tudo o que temos.
Há anos que tinha este hábito de fugir de casa à noite, quando tudo é respiração, e lá longe se ouve um cão a uivar ou uma escaramuça de gatos. As casas habitadas estão cheias de demónios que impedem o sono de se aquietar.
Levava a almofada para a praia, para o campo da bola, para qualquer local amplo e sem vestígios da presença humana. Aí, embalada pela lua e pelos sons da noite, deixava que a natureza fizesse aquilo que lhe fazia tão bem, embalá-la, acalmá-la, abraçá-la num sono leve, mas que, ao contrário de tudo o resto, tinha existência de facto.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A tua vida é uma bela merda? Tens de conhecer a Cici

Lá está ela, ali, num canto, olhar justiceiro, como aquelas amigas que gostam de ti, mas reprovam a maioria das coisas que fazes. Tenho a certeza que podia mudar a minha vida. Deixaria de fumar e beber, passaria a ter uma alimentação saudável, a levar mais vezes a cadela à rua, a correr que nem uma louca com um colete reflector por essa serra fora. Mas estarei eu preparada para a mudança que ali, naquele canto, existe em potência?
Estou há uma semana sem saber o que fazer. Se começar a relacionar-me com ela, talvez nada volte a ser como dantes, e é disso que tenho medo. Oiço as promessas que cumpriu: mudou a vida de tanta gente, de umas é braço direito e esquerdo, de outras é uma companhia, de outras ainda é tudo, a dona de casa que eu gostaria de ser. Gostaria?
Só a minha mãe para infiltrar na minha própria casa esta agente do KGB. Esta coisa que me deixa insegura e envergonhada de cada vez que abro uma lata de sardinhas ou atum ao almoço. Porque lá está, inerte, sem palavras, com o seu olhar reprovador. Agora, aos 38 anos, é que me tinha de acontecer isto... Não sei como reagir. Não sei como é que ela vai lidar com a minha inexperiência, a minha falta de paciência, os meus palavrões. E se vem da minha mãe, todos os cuidados são poucos, pelo que, a primeira medida que tomei foi ler tudo sobre o assunto. Há gajos especialistas na teoria de Heisenberg, eu sei tudo sobre a Cici. Assim mesmo, com "c". Eu tenho uma Cici, sei tudo sobre ela, mas não consigo, não sei se quero iniciar um relacionamento nesta fase da minha vida. Pior do que tê-la ali, vegetativa, é usá-la só às vezes, como um amante que se veste a seguir e dá dinheiro para o táxi.
Sabiam que há tratados sobre a Cici? E que a Cici não é pior do que a Bimby ou a Yammy? A Cici não é pior, nem é melhor. A Cici é diferente, começando pelo nome. A Cici tem várias lâminas, e até tem uma que corta e outra que tritura, e eu não percebo qual a diferença entre as duas, mas teno a sensação que deve ser bom ter duas lâminas diferentes para triturar e picar. A Cici é muito melhor do que eu, porque ela sabe a diferença entre os dois processos, e, pelo que li na net, é uma diferença muito importante.
A minha mãe ligou hoje. "Já estreaste a Cici?" "O Vítor gosta da Cici'?". Eu começo a ter medo da Cici, essa agente infiltrada e perfeita que jaz, vegetal, na bancada da cozinha.
Eu sei que a Cici é gaja para mudar a minha vida, mas, bolas, com esta idade? Acho que vou deixá-la ali e contra ela arquitectar um plano para quando o meu marido por ela se apaixonar. "Ai, a Cici... olha, podes ir para a cama com a Cici, mas tens de mudar a lâmina primeiro, não te vá capar as miudezas. E aproveita e pede à Cici para ir pôr o lixo na rua e levar a cadela a passear. Tenho a certeza de ela é capaz".
Hoje percebo aquela discussão pífia sobre se os robôs nos vão roubar os empregos. É que esta não fala, mas é como se falasse. E o olhar? Fulmina-me.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Reaprender

Reaprendo a dormir, a ouvir a minha própria respiração, a perceber a profundidade de um sorriso, o alcance das palavras que dizes ao meu ouvido. Devia ser proibido tirar uns dias de férias. Será que vou reaprender a fazer tudo a tempo, antes de acabarem?
O lençol de algodão ainda está quente da noite. Que importa? A porta para o terraço abre-se de nesga, para deixar a brisa passar e os corpos quase se arrepiam. Experimento muitas posições de preguiça diferentes e acabo espojada, diagonal à cama, pernas semiabertas ao sabor da corrente de ar, braços que apertam a almofada. Escondo a cabeça na tua. Estou com muita preguiça e só quero ter um sentido acordado, só quero ouvir o vento que passa nas árvores, os passaritos que se resguardam nas árvores, como eu aqui, lá ao fundo oiço-te a escrever, lá ao longe.
Deixem-me ficar aqui neste estado vegetativo, vergonhosa e preguiçosamente felino, a sonhar com tudo aquilo que poderia fazer e não me apetece sem ser mergulhar na minha própria respiração, cabeça imersa no cheiro da tua almofada, a descobrir em mim mais uma existência.
Sozinha, hei-de mergulhar na água quase morna e que cheira a eucaliptos, um ror de pressas a muitos quilómetros, mais uma certeza apreendida neste quase desdém: existo.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Piggy

De cada vez que olho para os pequenos felizes a chapinhar na água, lembro-me de ti com realismo. Naquele tempo em que uma maré vaza significava quilómetros para uma criança alcançar a água e havia pequenos lagos cheios de crianças nos quais preferíamos que não me banhasse. A água está choca. Iamos, assim, até à beira-mar, onde a água enrijece os músculos, de mãos dadas. Tu num casaco de fato de treino que hoje estaria na moda, mais de cinquenta anos a separar-nos, meu lobo do mar de pele e osso. Estacavas as pernas secas na água, canelas cheias do negrume do sol, calças arregaçadas - mal - e eu prendia-me a esses mastros, um de cada vez, e deixava-me ir ao sabor da corrente. Onda que vem, corpo a baloiçar para a praia, onda que vai, corpo a fugir para o mar alto. Podíamos ficar horas assim. Tu embevecido com um avanço meu, a medo, eu segura a ti, como sempre estive. Trinta anos depois de ter percebido que já só eras um fato branco pendurado no roupeiro, descontextualizado, sozinho, continuo a ter-te como o meu pilar, onde recorro  quando a maré está brava, e onde sorrio quando me deixo simplesmente levar pela água.

segunda-feira, 30 de março de 2015

O trapézio

Dói-me o trapézio de estar ao computador a escrever só com uma mão. É aquilo a que os velhos chamam uma moinha que irradia do fundo do pescoço para os ombros. E nem hoje tenho direito ao meu silêncio. Estou aqui, fechada na cozinha à tua espera, a escrever, e lá em cima reina grande galhofeira. Eu já só peço que não abram cabeças nem lábios nem partam os dentes da frente. De resto, deixá-los divertirem-se no escuro, a desafiar-me, eu que hoje não sou juiz de ninguém, nem meu, nem do gato que bufa com o cio, entre o jardim e a estrada e nos desorienta a concentração.
Há um copo de bom vinho, um almoço que foi feito ao jantar, para amanhã, e um jantar que entretanto esqueci que seria preciso fazer. Tão pouco tempo para tanto que se passa hoje, por aqui. Tantas memórias que entram e zarpam a mil para serem sucedidas por outras ainda mais longínquas trazidas por este cd que me deixaste. Eu, o Telmo, a Lisete, o Nuno, o Vasco e o Ildefonso, se chegasse a tempo, num quarto de uma casa igual a todas as outras a abanar o capacete, nas t-shirts brancas e camisas de flanela abertas, nos all star rotos e sujos com aquele cheiro a borracha queimada. Seria? Não me lembro sobre o que conversaríamos, sei que o fazíamos, ou então ficávamos em silêncio a ouvir o kurt gritar como hoje gritei ao volante do meu pequeno-burguês automóvel, no túnel do Marquês, luzes apagadas, volume no máximo, uma tremenda e alegre vontade de fazer aquilo que não é suposto. Hoje tive outra vez 14 anos, e tu não me conhecerias, como ainda hoje estranhas quando me vês abanar os cabelos em vez das ancas. As ancas cresceram a pensar em ti. O kurt haveria de compreender. O Telmo, o Vasco, o Nuno e o Ildefonso estranhariam, mas depois entranhariam. A Lisete imitaria, como qualquer fêmea.
Lá em cima, dois meninos desafiam a autoridade. "Grandma, take me home, Grandma take me home!".

segunda-feira, 2 de março de 2015

O Marques sem filosofia

Nunca vi o meu pai ser temperamental no mau sentido, com excepção de quando falava no Marques, o dono dos penhores para onde foi trabalhar depois de terminar a quarta classe e que lhe exigiu a compra de um par de sapatos para atravessar o Tejo. O Marques foi a primeira referência do que um patrão seria. Quando o pai chegava a casa, a pé, cansado de números e de contas e de histórias bafientas e prazos que secretamente anunciava aos clientes, o telefone tocava. Era o Marques. "O que é que esse gajo quer?". "Ó homem, claro que tranquei a porta. Sim, tranquei a montra também. Quer ir lá, vá lá você". O Marques era o meu pai a tratar alguém por "você". O Marques era um cabrão que atazanava a vida do meu pai durante o dia, mas também durante as horas em que supostamente deveria estar com a família. Sempre odiei os Marques com quem me cruzei.
O Marques tinha filhos que não queriam saber das histórias tristes de quem penhorava toalhas de linho, salvas de prata, libras de ouro. O meu pai, sabia o Marques, contactava todos os clientes quando o prazo para a penhora se aproximava. O Marques ficava fulo. O Marques lidava secretamente com esta falta aberta de fidelidade e utilizava-a para atazanar o miúdo que lhe granjeou fortuna dos 10 aos 60 anos. É muito tempo a lidar com o Marques. Mas o Marques também tinha um lado bom. Deixava o meu pai trazer as ameixas amarelas, ao abandono, que se acumulavam no quintal por onde entraram os ladrões e levaram tudo o que havia de mais brilhante. Tudo o que eu menos gostava. Eu gostava era dos anjos gordos de marfim, eu gostava de tudo o que era realmente velho e bafiento, eu gostava de poder ter ouvido a história de todos aqueles objectos que produziam tristeza e asco no meu pai. Como é possível encantarmo-nos por uma história que acabou em tristeza, ali, abandonada, nas prateleiras bafientas da loja de penhores do Marques? Aquele da loja de esquina, cujo chão rangia e a casa de banho era tão imunda que não me era permitida passagem?
"Como é que podes ser assim? Conheces o homem há quase tanto tempo como conheces o teu pai!", dizia a mãe. "Aquilo não é um homem, é um escroque. Podemos falar de outra coisa?"
Quando o Marques morreu, o meu pai não foi ao funeral. Quando o Marques morreu, a loja foi comprada por uns doutores que logo a mudaram para as avenidas novas. Na segunda semana, satisfeito com o respeito que lhe era devido pelos novos donos, o meu pai foi assaltado e brutalizado. Nunca mais foi trabalhar. Mas os novos donos ofereceram-lhe um relógio tal e qual o que lhe roubaram nessa tarde fatídica. O Marques haveria de pedir-lhe o balanço. O Marques, sem filosofia, era um verdadeiro prestamista. Raios partam os Marques deste mundo.

Fazer crescer coisas

Há quanto tempo não escreves? Há quanto tempo não te nasce das mãos um vestido, uma alface que rebenta a dureza da terra? Há quanto tempo nada cresce dentro de ti? De ti? Que luto é este? Que luta é esta, que não é tua? Há quanto tempo não sorris com o corpo todo por causa de um raio de sol, de uma onda que te molha o pé, de um menino que salta para o teu colo? Há demasiado tempo. As mãos estão perras, o útero vai secando, o sorriso deixa marcas. Mas tudo se reaprende, tudo há-de sair com a pressa e o destreino de um bebé que se precipita. Mais uma vez. E nesse dia, há-de haver festa na minha aldeia. Com direito a foguetes, a fanfarra, a pés descalços rodopiantes, a beijos roubados e a olhares que prometem, a medo, o que não se sabe se tem. É o sabor a vida.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

19h47

Há momentos em que recordo coisas que não vivi, que me lembro do quão perto tiveram. 19h47. Próxima estação: Pragal. Mandaram-me para a baixa. O médico já estava farto de me aturar, já era a terceira ou quarta vez que estava a pedinchar a reforma. Chama-o lá. Já não posso ver o gajo à frente.
Heroine, it's my wife, it's my life.
Uma porca e ainda queria que eu subisse na cadeira para limpar a sujeira toda, eu que ainda estava de muletas do acidente das escadas! Dois lances de escada e o que me amparou foi a cabeça. Tu tens a mania das limpezas, quem te manda lavar o corrimão?
19h49
Relembro a noite fatídica. Não abras a boca. A pistola apontada ao escuro das escadas. Lembras-te da engomadeira, que vivia num vão. Se eu correr agora, só me apanha a perna.
Sabes o que o bombeiro disse? Que só tinha corrido bem porque tinha as pernas gordas! Ahahahah! Eu ali, toda rasgada, sem saber a que país pertencia, e o homem a olhar-me nas pernas, o sem vergonha. Ahahahah!
Os livros caem no chão. Tanta sabedoria para ficar ensopada de sangue num vão de escada de madeira, em frente ao banco onde o senhor António fazia os biscates de sapateiro. Eu que sempre fugi dele, desejava agora ouvir o rádio. Bola branca. Pum. Corre.
20h01, próxima estação: Corroios
Ó homem, já não o posso ver. Acha que consigo reformá-lo por causa do dedo do pé? Eu passo o dia em pé! Olhe, arranje uma cadeira e sente-se. Você vai fazer tudo o que eu disser. Sai daqui, vai à farmácia, compra estes medicamentos todos e não toma, quando o chamarem, só tem de fingir-se maluco.
Eu tenho lá tempo para mim, mulher! É sair de casa de noite, chegar à noite, servir o homem e amanhã é um dia novo, igual ao outro. Quando me pintei, não sabes o problema que foi porque tinha outro: Maria, estás-te pondo bonita para quem? Vai limpar essa cara que mulher minha não sai nesses preparos. Ahahahahah.
I don't know just where I'm going
20h11 próxima estação: Foros de Amora
But I'm gonna try for the kingdom, if I can
O braço apertado. Primeiro à mãe, depois a ti. A mãe não foi a lado nenhum. Vamos passar o Martim Moniz. Dou-te a mão. Aperto-a. Não vais a lado nenhum. Procuras escaramuças que te negam por causa da tua fraca figura, meu menino jesus. Vou cuidar sempre de ti, pelas estradas principais.
Tou? Estou no comboio. Não, não te disse que ia chegar atrasada. Há peixe frito e arroz de pimento no frigorífico. Eu é que sei do teu cartão?! Eu sou a tua mãe?! Não, eu vou com a Maria. Vai comendo que eu não tenho fome. Comemos uma talhada de melancia antes de sair. Eu já estou a chegar.
20h15, não me lembro onde, temperatura exterior, 11 graus
Sai da minha cabeça, dá-me paz, senhor adormece-me. Tudo se atrapalha em duas linhas que se cruzam na minha cabeça. Há muita luz. Oiço tudo, todos, mães que conversam sobre filhos, homens que jogam algum jogo que tem bolinhas, vejo um filme de esguelha no telemóvel do lado. Cega, surda e muda, como a justiça.

sábado, 8 de novembro de 2014

O capitalismo do amor

Tive uma ideia para ultrapassarmos a crise. Tudo se resume a investir no amor. A ideia é muito simples e tive-a, obviamente, porque estou loucamente apaixonada por uma pessoa. Há quase dez anos. A minha ideia fundamenta-se na minha profunda necessidade de fazer tudo bem durante o dia de trabalho para juntar-me ao meu amor, à noite, para traçarmos grandes planos, orquestrámos corajosas empresas, com nome, NIF e planos de negócios. Ideias que nascem do puro amor um pelo outro e que são tão boas, porque se consubstanciam na inevitabilidade de sobrevivermos como par, como amantes. Não peço um subsídio para o amor, mas reitero a atenção que as empresas deveriam ter para com os contextos amorosos, onde pululam ideias, vontades, e filhinhos para nascer. Apostem no nosso amor e nós faremos crescer os vossos negócios. Porquê? Porque faremos tudo para estarmos juntos.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Resiliência

Hoje, ouvimos música pela primeira vez. Tu estás na cozinha há horas a fritar peixe, a fazer sopa para a semana, entretido na tua forma de afastar a tristeza. A música continua a mesma, transporta-me aos mesmos lugares de sempre, o que me dá uma certa esperança de que continuo, lá no fundo, a ser a mesma pessoa. Vamos escavando, recordando as boas memórias, suspendendo por esta noite o que nos tem apertado o coração e intoxicado o sangue. Acreditemos em nós, na nossa força cavalar e, nos momentos mais frágeis, que possamos esconder os olhos por debaixo do braço um do outro e dividir a dor. Como diz o prato da cozinha dos meus pais: "eu para ti, tu para mim, nós para os nossos filhos".

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Na tua partida

No dia em que o meu filho se vai embora deste país acordei com um torcicolo bravo. Mais forte o desejaria se me permitisse escrever isto com sotaque brasileiro, um mergulho no coração, uma leveza de anca, chora que ri, ri que chora. 
No dia em que o meu filho se vai embora deste país eu queria espremê-lo novamente entre as pernas, cheirar-lhe o cucuruto, limpar-lhe o cocó do rabo e enchê-lo de cremes caros, daqueles que cheiram a pasta de fígado de bacalhau e deixam memórias nos dedos.
No dia em que o meu filho se vai embora deste país eu queria dar-lhe uma lição de história, sem ser envergonhada, falar-lhe dos feitos quotidianos da família que lhe dá nome, deste país que sorri e se encolhe de vergonha a seguir.
No dia em que o meu filho se vai embora eu queria dizer-lhe que se orgulhasse de mim e do pai, que nos amámos às escondidas e o fizemos com vontade e orgulho, tanto quanto como nos separámos e o colocámos num pedestal intocável. O teu pai terá muito orgulho em ti, filho. Eu sei.
No dia em que o meu filho se vai embora deste país eu queria dizer-lhe que fosse honesto, grato, amigo do seu amigo, sonhador, realista, sem limites. O mundo é teu, consoante o que fizeres com a tua vida. Não guardes rancores e amores, as palavras foram feitas para serem ditas e os sentimentos para serem sentidos. Não acredites em fins, nem em buracos negros, são só uma questão de perspectiva. Os nossos deuses seguram-nos e, no fim da linha, há sempre uma luz. 
No dia em que o meu filho vai deixar este país quero dizer-lhe que aos 17 o mundo é nosso, mesmo que pareça estupidamente inalcançável como o sonhámos, que um par de cuecas e um livro fazem mais por nós do que as burocracias com hora marcada e os acontecimentos previsíveis.
No dia em que tu, meu filho, vais deixar este país, quero que te lembres que há um território ao qual pertencerás para sempre, que te acolhe na presença e na absência, nas palavras e no silêncio, no riso e no choro, e esse território, o nosso coração, é nosso, e só nós instituiremos os seus desígnios. Por favor, sê feliz.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Quando era pequenina, questionava-me sobre se deus ouviria as minhas preces sem som, se deus seria capaz de ouvir o que dizia e pedia em silêncio. Hoje voltei a pensar nisso e dei por mim a achar puerilmente ou felizmente que sim. Deus ouve os meus pensamentos e os meus desejos. Deus e os meus pequenos deuses. Largada nestes pensamentos obtusos, reparo, neste fim de tarde asfixiante, no homem velho e tisnado que fala francês com o neto-filho, no jardim da casa que ele próprio ergueu com as mãos e anos de trabalho em França. É francês. Já falaram sobre a morte, agora falam sobre a presidência da Europa. Ele, o pequeno francês, dá toques na bola, o velho português aproveita a brisa para se enfiar no túnel de terra que tem vindo a escavar e que levará água a casa e às amoras que diariamente nos oferece. É feliz. Sabe que só voltará definitivamente a Portugal para morrer. Que conversas terá ele tido com deus?

domingo, 29 de junho de 2014

Banho maria

A primeira pergunta. Como vou escrever isto se a mão direita está enfiada na tua barriga peluda, à mercê de mordidelas de amor que deixam sangue?
Estou tão zangada hoje, tão zangada que nem o teu ron-ron mecânico me acalma. Os últimos dias de espera, num local que quero esquecer, que é meu e me deu tudo, mas que hoje já nada tem para mim. Um adormecimento entre as oito e as dez da manhã que confirma a enfermidade. Dêem-me novidades que eu não fui feita para esperar e para ser paciente. Eu quero sair daqui, começar quase tudo de novo, estrear umas cuecas, voltar a fazer planos, voltar a poder fazer-te surpresas, surpreender-me a mim, mas não me deixem morrer em lume brando porque eu não sou um chispe. Quero voltar a falar como se o infinito estivesse preso numa das mãos e a gargalhada o soltasse e o eternizasse na noite como um eco de que nos lembramos quando estamos perdidos. Quero voltar a desenhar os meus sonhos, tortos e manvos, mas sonhos, e deixar de acordar porque o que aguardo - seja isso o que for - não acontece. Quero recuperar a minha autonomia literal e a minha pseudo literariedade. O resto quero mesmo que se foda.

terça-feira, 10 de junho de 2014

As contas do dia

Já não sei há quantos anos te conheço, mas sei que mesmo sem saber as contas de cor, conheço o teu corpo melhor que qualquer dia da semana. Por nós não passaram anos, passámos nós, passaram momentos, planos, orçamentos, beijos de vergonha, de desculpa, olhares no chão, mãos no peito. Não gosto de contabilizar nada, nunca fui boa a matemática. Para mim, o deve e o haver são coisas que sinto, não consigo transformá-las em números. Nunca teria jeito para o negócio, não nascemos para calcular, mas para fazer. Foi bom, não foi?

Final da tarde

Aproveitar o dia aqui é aproveitar das seis da tarde em diante, quando o Sol é suportável e só temos de catrapiscar os olhos se quisermos ter uma conversa cara a cara, que usualmente deixamos para horas mais tardias. Agora, há um vento quente a que a gente se habitua com os anos, que ao princípio quase sufocava e agora até sabe bem. A esta hora aqueço os pés ao sol, no cimento quente, por onde passam linhas e formigas que não descansam. Os pássaros barafustam antes que a noite caia e apanham pedacinhos de palha para fazer o leito nocturno. Daqui a uma ou duas horas cedem os sons às cigarras e aos sapos enormes. O vento continuará frio até que os pés se enregelem e peçam o pecado de umas meias quaisquer. Vêm os mosquitos que comem de nós até rebentar, cabeça, pés, dedos, tudo lhes serve. São como amantes vorazes que depois de estar tudo feito, voam para outras paragens. No dia seguinte, é tudo igual.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Amazonas

Noutro dia, já não me lembro quando, porque não ligo ao calendário, sonhei com um grande exército de amazonas com plano marcado para o próprio dia: iam fecundar-se obrigando todos os homens à face da terra a com elas se deitarem. A líder era a minha mãe, mas eu também marcava uma presença envergonhada no grupo. Ela gritava, irreconhecível. É hoje! É hoje! Hoje é o nosso dia fértil! Não os deixem escapar.
Não pode ser amanhã?
Não. Tem de ser hoje.

Quem explicaria isto? Freud ou a menopausa que se assoma?
Acordei a suar, numa grande aflição por não saber como cumprir a tarefa sem desiludir a minha rica mãezinha.

As águas de Maio

Nem a chuva deu o ar da sua graça. Caiu, timidamente, não o suficiente para regar as árvores ou as couves chinesas que crescem nos antípodas. Nem o carro lavou, nada. E eu que hoje só me apetecia diluviar, deixar-me ir na lassidão da tarde extemporânea, tirar a roupa e as conformidades e deixar-me levar, lavar. Hoje é um dia importante no calendário. Não porque chove ou alguém faz anos, mas por uma razão tão prosaica como ter decidido excluir uma palavra do meu dicionário. A palavra é urgência. Olho pela janela e os únicos que parecem ter urgência são sempre os mesmos: os coelhos que fogem, os ratos que temem pela vida ao olho do falcão, o cão que tem fome, o menino a quem lhe dói a barriga. Isso são urgências, emergências. Nunca mais me dirão: faz, é urgente. Nada é urgente quando não há tempo delimitado e hoje um dos meus calendários fechou-se. Não me venham com urgências e exigências, não abusem da palavra ao desbarato. Uma urgência é um caso de vida ou de morte. Sejam mais literais. Da próxima vez que ouvir: é urgente, replicarei com apenas os coelhos, os ratos, os meninos e os velhos têm urgência. Nós temos tempo. Todo o tempo do mundo para fazermos aquilo que fazemos da melhor forma que o sabemos. E agora, vou ver se chove.

domingo, 18 de maio de 2014

Primavera

Há dias em que até tenho medo de ir lá fora, deitar-me ao vento e aos pássaros e ao aroma psicotrópico de exala o jasmim, a madressilva e o maracujá. São dias perigosos de coração sem rédeas que se deixa ir. Experimento. Se não me mexer estou a salvo. Deito-me no baloiço, fecho os olhos e tento abstrair-me pelo som do vento, os badalos das ovelhas e o frenesi sexual da passarada. Sim, eu sei, os sons aqui são sempre iguais, o que muda é o ouvido de quem os ouve. Há dias em que quase não se ouve nada e há outros, como este, que há uma orquestra lá fora. O meu coração a trote do pensamento que se mistura com um aperto bom no coração, uma bola que sufoca a garganta e um nervoso infantil de apaixonados. Como dizia o outro, o amor é mesmo fodido. Vem e volta, sempre igual, tenhas doze anos ou setenta. Pelo menos, na cabeça. É daqui que o meu hoje não vai sair. Assim tenha rédeas nesta natureza que desperta.

sábado, 17 de maio de 2014

No primeiro beijo, as bocas engolem-se

No primeiro beijo, por muito romântica que seja a imagem de dois lábios que se tocam, as bocas engolem-se. O primeiro beijo anuncia o que vem de seguida e resume o que se passou antes: dois corpos indistintos e dois corações ansiosos.
Lembro-me do nosso primeiro beijo.
Demorou algum tempo a acontecer, não por falta de atrevimento meu, mas por medo. E se não gostasses? E se a vontade de um beijo fosse só do meu cérebro toldado pela paixão? Tanto medo e nós já adultos, vidas anteriores, filhos, e o medo de um beijo que já havíamos dado com os olhos e com o corpo.
E o beijo chegou, 350 quilómetros depois do início da viagem, a minha mão a colocar a terceira mudança no carro para tocar na tua, na recepção de um hotel numa terra estranha, quente, insuportavelmente quente.
E nessa recepção era como se ninguém existisse. O beijo que surge quando se firma uma assinatura no quarto, um acordo pré-nupcial da minha permanência em ti. Duas bocas que se engoliram, dois corpos colados, fora do tempo e do espaço, dois espanhóis a saborear um bagaço intragável e o beijo que tinha dentro trinta outros beijos que tinham ficado por dar. Nunca mais perdemos tempo.

Inspiração

Há coisas sobre as quais ainda não consegues escrever e resta a dúvida se um dia conseguirás. Talvez haja coisas que nunca podem ser escritas e que se infiltram em buracos e túneis e ficam presas à parede do coração como limo nas rochas da praia. Se me perguntares se as queria escrever, hoje já não sei. Certeza única de que ter algo para escrever e não conseguir é como um doce com que se acena a uma criança. Dá vontade de continuar, rondar, andar às voltas e só dar só uma chupadela para não acabar. Há coisas que custam muito a mover do coração para a cabeça, e agora, talvez mereçam ter apenas o papel que lhes reservei - ingredientes bons e maus do que me tornei.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Pânico

É preciso escrever, escrever, escrever, muito, muito rápido, e tentar acompanhar a sensação - de onde vem a sensação? A cabeça e o coração a disputar protagonismos, como se tivesse alguma importância este momento que se vive aqui em mim a muitos quilómetros por hora. Calem-se todos, deixem-me ouvir o que o corpo diz e não me atrapalham que o tempo não se pode perder e eu tenho de sentir, sentir muito, pensar na sensação, deixá-la sair do coração e resgatá-la no cérebro de onde nunca devia ter saído. Estás a sentir o calor que vem do peito, autêntico sol a pôr-se e para onde é perigoso olhar? E a barriga a contorcer-se? Estás prestes a ter um filho que não é mais do que uma invenção do cérebro, enterra-o lá. E os dentes que se cravam na língua e nas paredes da boca e rangem, rangem até fazer sangue? Usa-os para comer. Diz ao teu trapaceiro amigo cérebro que tens a lição bem estudada e que sabes por que razão as coisas têm uma função. O coração acelera-se e estende o raio de acção. Bate no peito, na virilha, no olho, tum, tum, tum, não sai de dentro dos teus ouvidos. Que venha alguém com uma mão secular e o arranque com força e rapidez. Não tenho espaço para um coração tão grande. O cérebro quase a ganhar-me e eu quase a deixar-me ir, derrotada, peço tréguas e proclamo-o dono e senhor deste corpo no limite, desgastado, corroído, suplicante. Nada que um calmante não resolva, penso. Penso eu ou sugere ele? Ponho em prática o que aprendi em anos de análise, tento relaxar e ver de fora, sentir e ser outra a explicar o que sinto a quem só se interessa por fenómenos químicos, com o pormenor de um legista que explica aos alunos onde começa um órgão e acaba outro. Isto passa. Passa sempre. Tu sabes. Sei? 

Planar

Neste final de tarde cujas cores convidam à melancolia, olho para o céu e vejo-te seguro, a planar, sem um bater de asas, assim minutos a fio, atento. E era assim que gostava de estar hoje, no céu, imóvel, a deixar-me levar pelas massas de ar quente e ar frio e, se não fosse pedir muito, que esse ar me entrasse pelo cérebro e o levasse para longe, no céu, vazia, a planar sem qualquer objectivo. Enquanto penso isto, do meu lado direito, um par de andorinhas pousadas no beiral ensaiam passos de amor, enquanto comem os insectos que desgraçados lhes caem no caminho dos bicos, máquinas automatizadas de alimentar crias. Ela olha para o lado, engole um insecto, coça o peito e ele aproveita essa distracção de um centésimo de segundo e voa-lhe para cima com grande alarido. As andorinhas não planam como um falcão. Ambos lutam pela sobrevivência, mas hoje uns tentam procriar e os outros procuram um qualquer bicho distraído que seja o jantar. Eu revejo-me em todos. Há dias que até desconfio que as galinhas são mais inteligentes do que eu e que este meu modo de ver só prejudica, um fardo que custa carregar e me impede de planar quando desejo. 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Maio do meu contentamento

Maio, um nome perfeito para um mês perfeito, o meu preferido, o dos exageros, o das calmarias, o das flores e dos casamentos, o das noites longas e dos pés descalços, aquele que é sorvido, de 1 a 31, como se não existissem outros 11 meses.
Maio cheira a criança.
A primeira coisa que me vem à cabeça, quando penso em Maio, é o aniversário do meu irmão, casa cheia de gente, vestidos curtos, alças que se descosem. A segunda é o aniversário de casamento de meus pais, as festas íntimas, as piadas marotas, os presentes que as filhas escolhem.
Maio é o mês dos amores, perfeitos, imperfeitos, de curta ou longa duração, mas aqueles amores que chegam e abanam, como se fosse para morrer. Acho que é da luz. Depois da escuridão e da chuva e do frio, algo desperta em nós, e na natureza, de forma bruta: rápida e urgente. 
Em Maio revelam-se os corpos, e os cheiros e as modas, os morangos e as cerejas, e os braços nus que à noite se arrepiam. Noites em claro, madrugadas de amor, manhãs briseiras, multas nos carros esquecidos nas ruas pela urgência. Em Maio, todos devíamos ter desculpa para fazer loucuras. Há muitos meses para expiar a culpa. Este, não.