sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O sol e os dias

O melhor dos meus dias? É fácil. O dia em que fomos ao Giraldo e tu entraste na livraria e eu fiquei ali, na praça gigante, ao sol e ao vento, a comer meia-dúzia de castanhas, no banco, entre o ucraniano das obras e a velhota do tricô. Ao sol, zero graus nas arcadas, eu senti-me livre. Tão livre ao ponto de pensar o que faria se fosse livre. Entre o homem das obras que se aquecia, e a velha do tricô que passava tempo, eu era o meio.

domingo, 24 de novembro de 2013

Esquecer as memórias

Olho para aquela fotografia que escolheste, uma menina com dois olhos que brilham e um sorriso que desafia. Dizes que não mudei nada, que sou a mesma - se soubesses o que me angustia essa mentira. Passaram-se quase quarenta anos na vida dessa menina que não sonhava ter um dia seguinte, um ano a mais, memórias de quê? Para quê?
Como é que eu te posso dizer isto sem que te desencantes comigo? Eu já não reconheço esse brilho, esse sorriso. Aliás, reconheço, mas não como eu. Alguém mo roubou. Por esse sorriso já passaram perdas, traições, fome, actos que me condenariam ao pelourinho. Eu já passei por muito. Todos nós, dizes, eu gosto de ti como és. Eu sei.
Mas hoje quero dizer-te que já senti no peito o aperto de perder um grande amor esbarrado contra uma árvore, que já traí, que já fui traída, que já fiz com o corpo e com o coração muitas coisas de que me envergonho, já me humilhei, já fui humilhada, já desejei a morte de alguém, já me deixei morrer, já esqueci esse sorriso. 
Mas quando sorris, é como se nada tivesse passado. Vejo uma criança.
Sim, mas há momentos em que tudo o que te confesso hoje me aparece em segundos, me reduz o coração a um aperto e me acelera a respiração. Parece que não é verdade. Mas depois vem um sonho e outro, e um corpo suado e aflito: eu matei alguém? O que é que eu fiz de mal esta noite? 
Depois abraças-me, mas já não consigo silenciar e sai tudo confuso, rápido, parece que desprovido de sentimentos. Comia papas e um bacalhau no forno no fim do mês. O resto era moedas com que comprava uma carcaça fresca, uma ida ao trabalho de meu pai na esperança de que me convidasse para almoçar. O silêncio imóvel de uma cama esburacada onde fingia estar a dormir e onde vinham e se serviam. Uma lágrima que secou e que nunca mais voltará a cair.
Esquece tudo o que te disse. Assim também eu finjo que nunca aconteceu.

Onde é que a gente fica?

Neste momento que agora vivo, neste preciso momento, oito e seis minutos da noite, não me basta a beleza essencial das coisas. A casa enorme está em silêncio, há a escuridão e um fogo que me arde nos pés e no coração. Para que serve a essência das coisas se não temos o olhar apurado para as ver, para, no momento do encantamento, as fixarmos, as integrarmos em nós, nos apoderarmos delas e assim também partilhar da sua essência. Neste momento, um pássaro é apenas um pássaro, e o único encanto é este lume que me aquece e o silêncio que me permite escrever. Se coisas bonitas existem, neste momento só identifico as forças da natureza, uma rajada de vento, uma chuva que inunda, uma onda que leva tudo com a sua força. E para que serve tudo isso quando os olhos se fecham e os ouvidos se cerram e o nariz se abstrai? 
É preciso encher as coisas de sentido, como uma criança que simula um acidente com dois carrinhos de plástico. É preciso fazer as rodas rodar para chegar a algum lado. Basta-me de encantamento. Quero fazer parte deste cenário falante, abrir o peito, colar o estômago à boca e dar-lhe a palavra. O que farei daqui a dez, vinte anos? Que palavras restarão? Que paraísos ainda haverá para me encantar? Que oceanos para remar? 
É muito fácil apaixonarmo-nos por adjectivos, mas eu hoje quero nomes, quero verbos, quero exclamações. Que seria do Alberto Caeiro sem o Álvaro? Para que serve a essência se não consegues deitar-lhe a mão, amarfanhá-la com força e moldá-la à tua forma? Fogo, vento, terra e água. E a gente? Onde é que a gente fica?

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Um frango e um brinde

O vidro do copo aqueceu na lareira. Lembras-te daquele dia? Sim, ajudaste a escolher a comida. Chegaste a casa três vezes bêbado à conta do almoço do nosso casamento, e fizeste um bom, um excelente trabalho. Não vou esquecer esse almoço. Eu vestida de noiva a guiar o carro sujo, pés descalços numa aldeia, quarenta graus, duas peónias e meia-dúzia de frésias do estrangeiro, já fora de época. 
O carro bloqueado junto à garagem de uma das avenidas da moda enquanto experimentava o vestido e tu, tu a 100 km a ensinar aos trolhas como construir uma escada que fizesse o sótão visitável no ia seguinte. Eu sentada no beiral o jardim a chorar. Não chore, menina, vai correr tudo bem, mal os homens das obras saiam daqui, limpamos tudo. Mãe, vou adiar o casamento. Não podes filha, agora é como é. Ninguém vai reparar nas obras, no lixo e no pó. 
Pego na mangueira no raiar das dez da noite. É preciso agarrar toda a força do poço a essa hora para limpar o chão do jardim. O único que se podia lavar. Trinta graus à noite. Um frango. Duas da manhã. Um copo de vinho no chão de uma cozinha lambida de pó. Deixa-me encostar ao armário. Estou tão cansada. Um brinde a nós.
Vai correr tudo bem.

sábado, 16 de novembro de 2013

Fechar os olhos

O sol deste final de tarde impõe-me o meu próprio reflexo no ecrã do computador. Vejo pelo canto da imagem os poros abertos e as linhas que marcam o contorno da boca e do nariz. A pálpebra já não se estica, habituou-se, preguiçosa, a este modo de estar. O cabelo parece ouro, mas há uma grande distância entre o ser e o parecer. Desgrenhado, apanhado atrás do pescoço que, felizmente não se reflecte. Há quanto tempo não vês os meus cabelos soltos, uma expressão que não evidencie a tensão destes músculos, a minha mão a procurar-te, o sabor de um beijo?
Continuo a olhar para este reflexo. Se virar um bocadinho o ecrã, vejo a janela por onde passa o sol. O vidro está sujo. Há imperfeições que se evidenciam: pequenos riscos, uma ou outra mancha de gordura, alguns pontos que revelam o setembro e as suas moscas. 
Estou cansada. Cansada como este vidro, chicoteado pelo sol, que entra sem ser convidado.

domingo, 10 de novembro de 2013

Dos dias e dos desejos

Eu só queria ter tempo para queimar os destroços do ano anterior, plantar o damasqueiro, a ameixeira e a figueira, arar o terreno, arrancar todas as urtigas e plantar a vinha, um metro cabernet, um metro moscatel, um metro dona maria, um metro cardinal. Eu só queria ter tempo para podar tudo a eito, pintar a casota inacabada dos cães, ter a minha horta ordenada, sem lesmas e daninhas, e assim poder dedicar-me aos bolbos e às oliveiras. Trazer a lenha para uma casa ordenada, quente, onde não faltem meias do mesmo par e onde as moscas tenham morrido numa estação anterior qualquer. Só queria ter tempo para me sentir, para acabar o dia com o sentimento de dia que rende, com o corpo felizmente dorido, o teu pijama de flanela e o lume que nos aquece até a manhã chegar, e tudo ser igual. Era mesmo isto que eu queria. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Chega a noite

Vens deitar-me, sentas-te à beira da cama, como quem vela um moribundo, rimos, dás-me um beijo e um até já. De repente, a cama cresce e faz-se gelo, e eu não me encontro. Esfrego um pé no outro, respiro compassadamente e treino os mantras, os iogas e as reflexões, e o sono afasta-se. Dormito, sonho com filmes de acção e comédia, mas os meus pés continuam frios. Onde estás? Levanto-me e tacteio as paredes, onde está a porta que me leva a ti? Percorro o corredor sob a luz da lua de prata, invade a sala e a cozinha, abro a porta e estás a tocar. Beija-me, leva-me a dormir, sussurra que está tudo bem, foi só um sonho. Preciso que estejas comigo, pelo menos até voltar a adormecer. Quando adormeceres, levanto-me eu para velar o que temos. Sentada no cadeirão, tapada com o cobertor materno, gatos em volta, lume a pedir vida, escrita finalmente em dia, falta de sono, eu a velar por nós.

Política não se serve fria

Meu amor, tivesse o dia mais horas para te cuidar. Encher-te-ia de beijos e lisonjeios. Entrelaçaria a minha perna na tua e, juntos, ficaríamos inertes numa sesta dominical. Tu falas sobre a política, eu oiço apenas a tua voz, o teu timbre que me faz vibrar, não fixo nada do que dizes. Não me culpes. Estou ocupada com o meu amor, as tuas notas e o corpo que as faz existir. Não me interessa a política, nem os paradoxos da constituição. O que me interessa és tu. Tu e a tua forma estranha de existir, meu carimbo de validade, prova viva da minha existência. Que importa tudo isto quando o meu pé se entrelaça no teu, quando a tua mão segura a minha mama esquerda e a outra se esconde entre as minhas pernas? Venha um político que me explique. 

Hoje quero

O que eu queria era mais amor, mais proximidade, mais carne e menos paleio, mais obrigados e menos se faz favor. O que eu queria era uma palavra de conforto, uma gargalhada sem hipoteca, um carinho gratuito. Estou farta de likes e de amigos que fazem likes e de mãos que clicam sem pensar. Façam com as mãos o que deus mandou que é abençoar... Esqueçam os amores, os desamores, os truques e tricas do escritório e dêem-se ao trabalho da autenticidade. Digam o que querem, gritem o que vos tira o sono, sejam honestos e coerentes com o que vos dá paz. Aproveitem o hoje, esqueçam o ontem e o amanhã. Não somos donos de nada. Erro. Somos donos de uma coisa que não entra em bolsa: a nossa vida.

Os sons da minha terra

Na minha terra, não se ouvem carros, nem aviões, nem vizinhos a discutir, nem música de elevador. Mas na minha terra ouvem-se muitos outros sons que chegam a enfastiar-me tanto como os sons da cidade, porque é natural do ser humano crescer contra o ambiente que o rodeia. Na minha terra, dizia eu, há uma cabra que chora e se confunde com um bebé abandonado nas silvas, há o tractor do senhor Faulkner que, por estes dias, investe contra a terra barrenta com violência e traz ao de cima uma cor que já tínhamos esquecido - um castanho férreo que só existe por um par de dias para logo ficar verde de azevém. Na minha terra, há sons de patos, perus e fracas, há um ou outro porco que também parece um bebé a grunhir - aliás, nesta terra a que pertenço, todos os sons se assemelham aos primórdios. E há os pássaros e as gralhas e as cigarras pela noite, e um coro de sapos que está além, junto do charco, mas parece invadir o alpendre e mandar nas nossas vidas. Na minha terra, há um coro de cães que parece uma matilha de lobos e nos faz ter medo de ir à janela sem a segurança de um xaile em volta do corpo. Uma mulher de xaile pode combater qualquer matilha furibunda, porque tem em si a tradição secular. Mas a minha terra não parou no tempo. Há dias em que caças sobrevoam os céus e nos fazem pensar que vêm aí os alemães. Ou helicópteros que vigiam os fogos e as queimadas. Na minha terra, os pássaros chilreiam. E o que há de novo nisso? É que estes chilreiam mesmo: chi, ri, chi, ri. Não há instrumento que os amarre e condense. Na minha terra, o vento tem som, e o sol também se verbaliza no zumbir das abelhas, e a noite... A noite é uma orquestra de sons manobradas pelas estrelas que parecem beijar-nos sem que possamos ser esguios. A minha terra tem tantos sons que ouvir o silêncio é algo só possível na cidade, onde o som abafa a vida.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O Amor

Um dia, vou escrever sobre o Amor. Serão muitos capítulos resumidos em três páginas que contam o que me disseste numa noite e que me lembro diariamente como quem reza um terço. Embriagados, numa casa que fora nossa e agora era uma ausência, uma elipse do que foi quando a enchíamos de gargalhadas e filhos. Tu dizias: se te fizesse feliz. Nesse momento, eu resumi-me, tornei-me pequena, diminuí no tamanho e no coração e vi, pela primeira vez, que me amavas mais do que eu, ou, pelo menos, que o teu amor se escrevia em maiúsculas. Tu dizias: suportaria que me traísses se isso te fizesse feliz, que tivesses sexo com outras pessoas, se isso te completasse, e, nesse momento, vi não só que o teu amor por mim era impossível de caber numa esquadria como me enfiavas, resolutamente, na categoria dos humanos. Não posso dizer que não fiquei feliz.

O que realmente importa

Quanto mais cansada estou, mais vontade tenho de escrever. Que vício este, espécie de instinto de autopreservação, que me mantém a sanidade. Preciso escrever, às vezes tenho até vontade de voltar à escola e tirar um doutoramento em física quântica, tivesse eu as qualificações para tal. Chego ao fim do dia de discussões pífias, de provérbios e frases bonitas, com vontade de ler Wittgenstein e esquecer o tempo, o modo e as pessoas. Preciso muito de abstrair-me para continuar a exercer a actividade que me põe o pão na mesa. Preciso de tudo o que sirva de escape: de criar, de escrever, de esgaravatar a terra, de desligar o telefone e dormir uma sesta à hora do expediente. Preciso de uma certa, pequena, dose de humanidade, com a qual me possa rir e relativizar e esquecer e relembrar o que é realmente importante: uma criança que aprende a dar beijos com barulho, um cão que te acompanha no choro, um homem que se confessa saudoso.

domingo, 3 de novembro de 2013

Contabilidade

Enquanto te oiço ronronar, e uso as tuas unhas para limpar as minhas, já a madrugada vai alta, exercito um balanço da vida, é a única altura do dia em que estamos sós para fazer as contas do deve e do haver. Sabes como preciso de silêncio para somar um mais um, há qualquer coisa de solene na ciência que ultrapassa a bata e os procedimentos. Resvalam os cantos da boca para baixo. Não há nada de bom que nos fique na bagagem, como uma bateria extra num momento de aflição. O que é mau permanece e remói; o que é bom esgota-se na sua própria evocação - tanto epicurismo para tão avançada hora. A melga que sobrevoa o ouvido direito, indiferente à frieza da noite e ao capuz que tenho vestido porque a idade não perdoa e o lume morre sem anunciar. O que tenho hoje aqui, o meu saldo, resume-se à tua pata dada com a minha, ao silêncio desta imensidão pontuado pelo balir de uma cabra que chora, o último braseiro antes de adormecermos, os dois, entre a lista sempre inacabada do deve e do haver.

As lágrimas são as palavras do coração

A inquietação é o sistema digestivo a dois tempos. São as bochechas que incham sem ar e as mandíbulas que se cerram sem ter-se noção da dor. São dois olhos muito abertos à espera do predador. Uma enorme bola na garganta. Umas quantas palavras repetidas em ping-pong na cabeça.

sábado, 2 de novembro de 2013

Abandonar-me

Esta noite é fria e também podia ser tórrida. Para mim, é-me igual. Tornei-me num ET imune às variações de temperatura. Tanto se me dá. Estou farta de mim, do espaço e do tempo, das circunstâncias e das pessoas. Só me apetece a intemporalidade, o não-ser, o buraco negro onde nada existe. Não me importo com o vento, nem com as folhas que caem das árvores moribundas, nem os animais, desde que sejam pequenos e não precisem de mim para viver. Sobretudo, procuro a ausência de interacção. Não quero comer, arrasto-me para beber água e tanto se me dá se acabou o papel higiénico ou se o pão está duro. Não me quero mexer nem quero saber de qualquer movimento que não me venha pelos sentidos. Tenho tudo, dizem. Mas deixei tudo morrer e não me sinto capaz de começar tudo mais uma vez. Sim, estou no fundo, mas não no fundo patético dos que querem terminar. Eu não quero morrer, ou se calhar morrer é isto. Eu só queria abandonar-me, abandonar tudo, fazer-me à estrada incógnita até que o cansaço me permitisse encontrar um lugar que nenhum gps localizasse. Deixar-me ficar no anonimato o tempo suficiente para me fartar, para ter saudades - e o que são saudades? - como se permanecesse num internamento hospitalar, com o desdém que qualquer doente tem para quem diz que cuida. 
Um ano passou, e fiquei assim. Não sei quem fui, e o que me lembro parece-me cada dia mais inverosímil. Com cada trago de vinho, parece-me cada vez mais risível, mais ridículo. Não me perguntem o que se passa. Eu só queria conseguir dormir como quando era criança e gritava pelo pai usando o copo de água como desculpa para ter uma luz acesa, sentir o calor de um hálito humano. E tudo isto é fruto da imaginação. Que pai era este que hoje não conheço? Que mãe é esta que hoje perdeu o sexto sentido e precisa perguntar-me como estou? Para quê os filhos se os amo e os odeio no minuto seguinte e se o meu desejo hoje era vê-los longe? Sabê-los cuidados e amados por outrém. Hoje não sou capaz. Hoje não sou capaz de nada. Hoje sou capaz de meter-me na estrada, e seguir em frente, pelo menos, até amanhã.